sexta-feira, 5 de agosto de 2016

O Diabo 2: O que te domina?

Vamos continuar a falar sobre o arcano do Diabo pois esta carta é muito rica em significados e seu simbolismo atravessa gerações e culturas distintas.

No texto anterior vimos como o arcano 15 numa leitura sugere a situação de dominação do Ser por algo que ele mantém escondido, seja porque em algum nível sente prazer nessa dominação seja porque ainda faltam ferramentas para confrontar seu algoz e se libertar dessa escravidão.

Este arquétipo é comportamental, mas tem força de ação a partir do mental da pessoa. Tudo começa no sistema de crenças que foi introjetado ainda na infância, quando aquela criança ainda não tinha condições de discernir sobre atitudes e conceitos.

Em toda família temos estabelecido um sistema de crenças, um jeito de ver a vida e de se posicionar no mundo. Muitas vezes, há uma religião que determina o que é bom e o que é mal, o que é aceitável e o que não se pode fazer. Esse sistema de crenças vai sendo incorporado pela mente infantil como sendo a própria realidade, já que a mente filtra a realidade real e absorve somente aquilo que faz sentido para ela.

No Tarot Zen de Osho, essa carta é chamada de "Condicionamento".

A realidade pode ser algo bem maior do que imaginamos, ou ainda a realidade pode ser diferente do que aquela mente incorporou como sendo o real. Temos aí um déficit entre o mundo real e a visão de mundo da pessoa, o mundo real fica limitado pelo tamanho do enquadramento que a mente deu para esse mundo.

Em nossa infância, o entorno no qual vivemos pode ter feito a mente assimilar crenças que determinam que “não merecemos ser felizes”, ou “não podemos ganhar esse monte de dinheiro sem sujar as mãos”, ou ainda que “só seremos felizes depois de casar e comprar uma casa própria”.

Outras vezes, a mente se identifica tanto com apenas um aspecto do Ser que a pessoa acredita que é apenas aquele aspecto. Por exemplo, uma criança que deixava de fazer a lição de casa e era constantemente taxada de “preguiçosa”. Ela pode internalizar esse rótulo e realmente acreditar que ela É preguiçosa, enquanto que na realidade pode ter havido apenas algumas ocasiões em que ela ESTAVA com preguiça mas desenhava muito bem!

A mente pode não diferenciar o ser do estar, e atribuir então à pessoa esse rótulo que vai determinar suas expressões e atitudes ao longo da vida. Como fazer diferente se na minha vida toda eu sempre acreditei ser preguiçosa? Ficamos aí presos no chamado “complexo de Gabriela”, o eterno “eu nasci assim, eu cresci assim, vou ser sempre assim”.

Nada mais limitante do que acreditar ser o que você não é!

Então, chega na nossa vida o arcano 15 para nos mostrar qual é o estado de consciência que impede o pleno desenvolvimento, porque é esse estado de consciência que vai criando a sua realidade. A realidade em que a pessoa acredita vai se tornando concreta e vai confirmando dia a dia aquela crença inicial: “sou uma pessoa preguiçosa e não mereço ser recompensada positivamente. Na minha vida, nada dá certo mesmo, eu não mereço...”

As crenças limitantes são um viés que turvam a realidade real, e uma lealdade inconsciente àquelas crenças vão minando a energia criativa da pessoa até que ela se sente improdutiva e refém desse jeito de ser dela. Aquela crença limitante vai dominando toda a capacidade de criação e de realização da pessoa. A vida para naquela mesmice de sempre e o que eu recebo do mundo não me alimenta mais.

Quando isso acontece, é comum a vida começar a criar padrões de repetição dos eventos que nos colocam em choque com essa crença limitante: a falsa segurança de agir de acordo com o que sempre acreditei que era eu.

Sustentar nossos condicionamentos pode ser muito penoso e uma tensão constante.

Esse conflito interno pode exigir muita energia psíquica para ser resolvido, e até podemos ir adiando esse confronto por muito tempo, até que um dia a dor dessa estagnação nos alcança e nos força a enxergar o mundo como ele é de verdade, e não mais como gostaríamos que fosse. Isso é o arcano do Diabo em ação.

É nesse contexto que o arcano do Diabo vem iluminar nossa conduta, forçando-nos a reconhecer que impulso foi aquele que gerou nossos condicionamentos produzindo resultados negativos para nós. O Diabo se torna Lúcifer - o portador da luz, que iluminando as nossas sombras mostra a verdadeira natureza daquelas ações, permitindo à consciência enxergar o quadro completo e perceber sua autorresponsabilidade em tudo que produz.

Ver com clareza a própria realidade é reassumir seu lugar no mundo e retomar para si o poder de decisão sobre a própria vida, resgatando sua capacidade enquanto agente consciente para fazer suas próprias deliberações de acordo com quem Eu Sou. Não fico mais à mercê daquela programação infantil que se repete indefinidamente, mas agora tenho liberdade para fazer escolhas e fluidez para viver.

Nesse novo estado de consciência, o Ser pode agora rever suas crenças e se reprogramar internamente para poder realizar aquilo que o realmente deseja, materializar no mundo externo aquilo que seja fiel à sua verdadeira natureza interna e que agora ele reconhece.

Mas há ainda algo no arcano 15 que eu gostaria de falar a respeito, e é sobre a relação de dominação do feminino pelo masculino que vem melhor elaborada no tarot de Aleister Crowley e Frieda Harrys.

Qual o maior poder que uma pessoa pode ter?

Sem dúvida é o poder de criar outra pessoa, a fertilidade. Vejam que interessante a representação da fertilidade humana a partir da união dos princípios feminino e masculino na carta do Tarot de Toth.

Por isso a ilustração da carta feita por Frieda Harrys traz o grafismo dos órgãos reprodutores, o feminino dentro do masculino. O masculino está bem óbvio na pintura, mas o feminino está escondido no traçado do bode.

E o que se parece graficamente com um bode com chifres tão compridos?
  
Isso mesmo, o útero e os ovários femininos. É desses órgãos que vem a energia criativa da mulher e de todos os seres que ela vai gerar. As mulheres geram todas as pessoas que existem no planeta, toda a energia vital que circula entre os humanos vem das mulheres. O DNA mitocondrial que transfere a parcela de energia para as células vivas do corpo humano vem exclusivamente do óvulo da mãe.

E para dominar um tremendo poder como esse, o meio mais eficiente é a criação de uma cultura que sobreviva a qualquer sistema de leis e religiões, e não somente subjugue essa potência mas a desqualifique de tal forma que torne todos os atributos femininos em negativos. 

Enquanto o masculino é capaz, forte, eficiente e competitivo, o feminino é incapaz, frágil, insuficiente, incompleto e tantas outras coisas “ruins”.

Na outra ponta, nossa cultura ocidental foi fortemente apoiada no cristianismo e em alguns pilares do judaísmo, tendo absorvido o símbolo do “bode expiatório”. Essa cerimônia era praticada bem antes de Cristo, onde o povo hebreu se reunia anualmente para lançar energeticamente todo o seu ódio, sua raiva e frustração daquele ano sobre um bode, o qual canalizaria toda essa energia ruim e levaria a culpa por todos os malfeitos do povo. O bode era morto sobre um altar, sacrificado para expiação dos pecados de todos.

Nessa correlação simbólica entre o bode com chifres e os órgãos reprodutores femininos, vemos que todo o ódio, raiva e frustração de um povo continuam sendo direcionados energeticamente para um alvo comum: a mulher.

O efeito inconsciente desse padrão simbólico é sentido em todas as populações, a cultura do machismo oprime as mulheres em todos os grupos e representações sociais. Isso tem nome: se chama misoginia, é o ódio direcionado ao feminino que impregna todos os atos de violência contra a mulher, deixando bem claro como essa canalização energética motiva a intolerância dirigida à mulher e ainda a culpa por isso. Ela é o próprio bode expiatório.

E as mulheres por sua vez absorvem esse padrão da culpa feminina de forma também inconsciente, podendo se submeter mais comumente a relações desiguais e abusivas ou até mesmo desenvolvendo comportamentos autodestrutivos para punirem-se pelo desejo da “desobediência” ao sistema de opressão, como por exemplo a bulimia como resposta à desobediência do padrão da magreza, ou a automutilação como punição à desobediência ao padrão da beleza.

A misoginia é uma crença limitante, atemporal e supracultural, que define programações mentais muito eficientes e que impede homens e mulheres de alcançarem suas verdadeiras vocações.

Quando temos a oportunidade de lançar luz sobre essas questões de dominação cultural que nos atingem a todos, homens e mulheres, isso mobiliza muitos conteúdos internos. Podemos perceber como um sistema de crenças de uma pessoa poderia tê-la estimulado desde a infância a um nível de competitividade e exercício de autoridade implacáveis, o que podem impedí-la  de desenvolver relacionamentos saudáveis na fase adulta. 

E como isso pode reverberar negativamente no dia a dia de todos num espectro mundo maior quando governos e líderes incorporam essa programação mental e passam a reproduzir essas limitações negativas no mundo real, impedindo coletivamente a construção de relacionamentos saudáveis por gerações inteiras.

Nada mais provocativo que um Diabo mulher para nos fazer pensar a respeito do machismo e misoginia definindo quem nós somos na sociedade moderna de hoje, não? O Tarot de Marselha, um dos primeiros conjuntos de cartas divinatórias, já tratava bem dessa caricatura social lá em meados dos anos 1700.

Ter essa clareza sobre a nossa história civilizatória e do quando podemos ser influenciados por um sistema de crenças que resiste por eras e culturas, possibilita um verdadeiro salto quântico e nos coloca em outra escala de percepção dos eventos da nossa vida. Isso pode ser a chave mestra para abrir os cofres do nosso inconsciente e tirar de lá de dentro medos e crenças limitantes que impedem nossa evolução pessoal e coletiva.

Como disse Jung: “o que não enfrentamos em nós mesmos, encontramos como destino”.

Verbenna Yin
Astros - Tarot - Psicanálise

sexta-feira, 15 de julho de 2016

O Diabo

Esta terrível carta traz como símbolo um monstro, algo meio humano meio animal, com uma expressão desafiadora, com a mão direita aberta e voltada para cima enquanto a mão esquerda segura um tocha de fogo voltada para baixo. Num ambiente escuro, esse ser das trevas está sentado sobre um cofre, de onde saem grilhões que mantém presos um homem e uma mulher de aspecto selvagem com chifres e caudas. E na cabeça do grande monstro, um pentagrama posicionado para baixo com a ponta voltada para o cofre. Certamente, uma representação amedrontadora.

A primeira ideia que podemos tirar da representação simbólica do arcano é a dominação que o monstro exerce sobre o casal de prisioneiros acorrentados. Não há como escapar da influência do monstro e o casal só pode fazer aquilo que o limite das correntes lhe permite.

O estilo selvagem das figuras humanas nos indica que ambos estão ali em seu estado mais primitivo, numa analogia ao indivíduo que está ainda entregue à necessidade de satisfação dos desejos sensoriais, a parte mais antiga da nossa formação humana e que se comunica diretamente com os conteúdos desejantes do ID.

Enquanto o Ego e o Superego encontram certa conexão com a área consciente, os conteúdos do ID não são controlados pelo filtro da consciência. Naquela famosa imagem do iceberg para demonstrar a primeira tópica de Freud (a existência do inconsciente), Ego e Superego tocam a superfície da área consciente, porém o ID está numa área mais funda, totalmente submerso na água.

Nesse lugar profundo e escuro da mente, não há máscaras nem filtros possíveis, ali residem desejos e emoções com vida própria que podem dominar a consciência se encontrarem um caminho de saída. Aqui, a psique não faz julgamentos nem aplica noções de bem e de mal. É onde estão guardados nossos impulsos incessantes pelo prazer, os estímulos constantes de tensão e relaxamento, o pulso da vida e da morte.

Em nosso estado alerta de consciência usual não conseguimos acessar essa parte mais primitiva da psique, ela fica guardada numa área de acesso muito restrito, o que é representado pelo tom escuro da carta. É em nossa caverna escura que começa a jornada humana pelo desenvolvimento psíquico rumo à iluminação da consciência, como propõe Platão em seu “Mito da Caverna”.

Presos ao cofre e na escuridão da caverna, o homem e a mulher estão eternamente fadados a realizar apenas aquilo que satisfaça seus instintos mais primitivos, suas necessidades de aplacar os sentidos do corpo (a cauda em forma de uvas da mulher) e de satisfação sexual (a cauda de fogo do homem).

O cofre sugere que ambas tem um segredo muito bem guardado, representando a nossa tendência de 
ocultar no inconsciente as memórias que nos causam dor: as repressões, a necessidade de adaptação para sobreviver, o abrir mão de algo próprio para pertencer, os aspectos que não temos firmeza para assumir, os desejos frustrados. 

Mas as figuras humanas estão presas a essa cofre com correntes, indicando que tudo aquilo que foi ocultado da consciência e mantido em segredo tem potencial para nos dominar criando limites reais aos movimentos diante da vida.

Essa força oculta que domina a consciência e leva o indivíduo a realizar os mesmos atos é a pulsão, termo desenvolvido por Freud para se referir aos processos repetitivos de excitação psíquica que demandam uma certa ação para trazer o alívio correspondente, neutralizando aquele estímulo.

Aqui o indivíduo cria um caminho mental, inconsciente, onde deposita em certo objeto o foco da sua energia psíquica (libido), passando a desejar esse objeto com certa frequência e gerando o movimento dessa energia, que vai sendo estimulada até um nível de excitação tal que o indivíduo, incomodado com a tensão interna criada, precisará se mobilizar para atender seu desejo. Ao possuir esse objeto focalizado, o indivíduo se sente satisfeito, ocorre uma descarga psíquica e a energia libidinal é neutralizada, reequilibrando o sistema. Ao perceber esse circuito e suas etapas, o aparelho psíquico estabelece um padrão e sem se dar conta o indivíduo passa a percorrer esse caminho repetidamente sempre que se sente estimulado, pois o sistema nervoso busca a redução dos estímulos funcionalmente.

Em “Além do Princípio do Prazer”, Freud afirma que:

“A tendência dominante da vida mental, e talvez, da vida nervosa em geral, é o esforço para reduzir, para manter constante ou para remover a tensão interna devida aos estímulos (o Príncípio de Nirvana).”

Porém, por ser um processo inconsciente, o indivíduo envolvido nesse mecanismo não tem clareza sobre o foco desse processo e sequer pode se dar conta de qual seria o evento que deu origem ao padrão. Nesse sentido, Freud notou que muitas vezes o circuito de estimulação e descarga de energia libidinal não visa uma satisfação apenas, pois o resultado desse circuito pode ser a humilhação, a vergonha, a dor, a privação da saúde, o que não é nada positivo e pode levar a uma descarga extrema levando à pacificação total do estímulo pela aniquilação – é a pulsão de morte.

Freud percebeu então que “existe realmente na mente uma compulsão à repetição que sobrepuja o princípio de prazer”. A necessidade de repetição é maior do que a necessidade de satisfação.

É nesse ambiente que se desenvolvem as dependências emocionais, as relações de poder e autoridade exercidas pela dominação do outro, a busca constante pela satisfação dos vícios, os entorpecentes, o sexo desprotegido, o excesso de comida, o uso exagerado do cigarro, os relacionamentos abusivos, a violência entre pares, são exemplos de focos por onde se encaminham as pulsões de morte.

Mais tarde Freud vai vincular os processos de compulsão à resistência do Ego consciente em reconhecer os conteúdos psíquicos associados, gerando o circuito de excitação e aplacamento da energia psíquica como um caminho simbólico, proposto pelo inconsciente, para que o indivíduo se recorde dos eventos e emoções que precisam ser tratados. Em “Recordar, repetir e elaborar”, Freud vai justamente discorrer sobre o mecanismo intrincado das repetições que mostram essa oposição de forças, de um lado o inconsciente gerando um processo repetitivo e simbólico, revivendo um evento que precisa ser integrado, e de outro lado a consciência se negando a admitir aquele conteúdo e substituindo esse foco por um objeto externo – que será o foco da compulsão.

A compulsão que nos domina vai nos tornando escravos, nossa energia é escoada para outro lugar e vai alimentar alguma outra coisa que não a nós mesmos. Perdemos nossa vitalidade e ficamos vazios, com mais fome ainda e aptos a fazer tudo de novo para saciar essa fome outra vez. E assim sofremos repetidamente, andando pelo labirinto escuro da inconsciência.

Nesta imagem do Tarot Mitológico, o casal está aprisionado por uma criatura imensa, um Pan que é metade homem e metade animal, indicando a luta entre instinto e razão, entre consciência e inconsciência. Mas o casal não está triste por estar preso, ao contrário, estão contentes e até parece que estão dançando ao som da música da flauta de Pan, numa alusão ao quanto as compulsões nos distraem do verdadeiro trabalho de autorreconhecimento. 

Esse ciclo vai se repetir indefinidamente até a pessoa ter força suficiente para assumir os aspectos da sua natureza e se posicionar conscientemente a respeito disso. Esse posicionamento é uma ação voluntária do indivíduo para reassumir o controle dos seus comportamentos e sair da dominação daquilo que o aprisiona.

Na mesma linha, Jung propõe esse honesto reexame dos conteúdos ocultados no inconsciente ao tratar da Sombra, que é um aspecto da nossa psique constituído por tudo aquilo que negamos a nosso respeito, o que não encontra coerência na imagem que construímos de nós, nossas características inferiores, o que achamos que não somos e o que não queremos ser.

Para nos adaptarmos a um mundo cada vez mais doente, que exige ideais severos de beleza, de comportamento e de produtividade, pagamos um preço bem alto. E para reprimir partes nossas que não condizem com esses ideais usamos de uma certa agressividade autodirigida, é como uma amputação que levamos adiante sendo violentos e sentindo raiva por termos feito isso conosco.

Na dinâmica Junguiana, esses aspectos nossos que nos esforçamos para esconder a todo custo formam a Sombra, que por estar no inconsciente não conseguimos enxergar mas projetamos nos outros. Como somos seres coletivos e vivemos em comunidade, vemos mais facilmente no comportamento alheio aquelas características que não toleramos nem admitimos em nós mesmos - e podemos até sentir inveja dessas características que os outros têm e que nós não conseguimos desenvolver.

Nessa abordagem, quanto mais reafirmamos aquilo que admitimos sobre nós, mais força teremos que empenhar para manter a Sombra escondida. Mas o padrão do aparelho psíquico busca pela constância e o equilíbrio das forças internas e de tempos em tempos a Sombra extravasa e se manifesta atraindo situações que reproduzam o drama inicial ocultado no inconsciente. Porque na verdade essas partes de nós são reais também, elas não deixam de existir apesar de estarem escondidas, e de tempos em tempos a Sombra pede a nossa atenção porque ela precisa ser vista, reconhecida. Precisamos nos por em termos com ela. Precisamos nos acolher.

Quando não damos chance para essas partes de nós, elas se juntam todas e nos pegam pelo calcanhar, fazem a gente se distrair e nos sabotam, tiram nossa vitalidade para que possamos sair do automático e olhar pra dentro. A sombra vibra no polo negativo porque está na inconsciência, mas a medida em que vamos nos dando conta dela, trazendo-a para o consciente, a vibração muda e podemos trabalhar esses aspectos no polo positivo - pois a luz é a vibração mais elevada. E simbolicamente, luz é consciência.

Aqui também Jung propõe que a repetição é uma forma simbólica de acessar o conteúdo reprimido, pois, ao repetir aquele ato várias vezes, o indivíduo se dá conta da representação e finalmente abre caminho para que esse conteúdo suba à consciência e possa ser então integrado por meio da aceitação, o caminho para nos colocarmos “em termos” com a nossa Sombra.

No arcano do Diabo, a experiência intensa das pulsões que envolvem o mundo dos sentidos permite o esgotamento da energia psíquica pelos circuitos de repetição criados. Tomar consciência desses processos é uma rendição total à nossa verdadeira natureza, a aceitação nos leva a compreender o sentido oculto de todas aquelas repetições que nosso inconsciente promovia tentando nos fazer enxergar além dos símbolos e padrões estabelecidos.

O sofrimento que vivemos, afinal, passa a ter significação e encontramos o sentido de todo esse percurso. É o que Jung afirma em sua célebre frase: “Aquilo que negas, te subordina. O que aceitas, te transforma.”

Ou nas palavras de Freud: “Quando a dor de não estar vivendo for maior que o medo da mudança, a pessoa muda.”

Muita coisa boa pode vir depois desse encontro consciente com o Diabo arquetípico, notadamente a capacidade de decidir livre e voluntariamente e não mais ser conduzido pelos condicionamentos ou pela necessidade de aplacamento da excitação pulsional.

Muita coisa boa pode vir depois desse encontro consciente com o Diabo arquetípico, notadamente a capacidade de decidir livre e voluntariamente e não mais ser conduzido pelos condicionamentos ou pela necessidade de aplacamento da excitação pulsional.

Especialmente, este arcano propõe deixar de lado a agressividade que infligimos a nós mesmos quando usamos toda a nossa energia para nos mantermos acorrentados a um processo que se repete indefinidamente, minando nossa vitalidade e reduzindo nosso âmbito de ação perante a vida, o que nos aprisiona a uma condição de escravidão na prática.

Quando a carta do Diabo aparece numa leitura terapêutica, isso pode indicar que o indivíduo está vivenciando uma época de muita intolerância, no auge das projeções inconscientes e muito perturbado por não conseguir controlar os impulsos por algum tipo de vício. Pode ser também que esteja tão absorvido na manutenção de uma imagem de sucesso, e recebendo de fato reconhecimentos do mundo externo por isso, que não perceba o preço que está pagando por não exercer sua integridade.

É importante que o analisando seja informado desse construto mental para que, estando predisposto, possa fazer as associações possíveis que permitirão a abertura por onde o conteúdo inconsciente possa, enfim, passar e se apresentar à consciência para ser visto, reconhecido e acolhido.

Verbenna Yin
Astros - Tarot - Psicanálise

domingo, 25 de outubro de 2015

A Temperança

Tarot Mitológico
Esta linda carta nos traz a imagem de uma mulher angelical ao lado de um regato, com um pé na água e outro em terra, circundada por uma espiral de energia em forma de arco-íris, e que está muito concentrada despejando água de uma taça a outra seguindo o curso da mão esquerda para a direita. Aos seus pés vemos flores violetas abertas, florescendo, e ao fundo vastos campos verdejam até a linha do horizonte.

O arcano da Temperança marca o final da segunda sequência setenial do tarot, indicando uma conclusão de ciclo importante pois houve aprendizados sensíveis nos arcanos anteriores. Todo esse aprendizado está sendo consolidado pelo indivíduo, que a partir da ação consciente poderá agora realizar os trabalhos internos necessários à integração das experiências.

A Temperança fala de uma atitude que é mental, onde a atenção é dirigida com foco no momento presente e imbuída de intenção e determinação em um objetivo claro. A água que verte da esquerda para a direita nos mostra que o movimento da energia psíquica é do inconsciente para o consciente, representando que existe uma conversa entre essas duas instâncias psíquicas que ocorre com fluidez.

As flores e os campos verdes denotam a fertilidade como efeito desse livre fluxo dos conteúdos do inconsciente, fonte da nossa força criativa.
Tarot de Thoth
Arte de Frieda Harris

A integração dos polos opostos, consciente e inconsciente, é fortemente explorada na imagem do arcano feita por Frida Harrys no Tarot de Thoth, que leva o nome de “A Arte”.

Nesta imagem foi propositalmente incluída a máxima da Alquimia “VITRIOL – Visita Interiora Terrae Rectificando Invenies Occultum Lapidem”, que significa: “Visita o interior da Terra, RETIFICANDO, e encontrarás a pedra oculta”. A pedra oculta é também referenciada como “Pedra Filosofal”, o cerne da humanidade em cada um e que simboliza o indivíduo na sua forma mais elevada.

Na Alquimia, a primeira tarefa do adepto é a sua própria transformação; para regenerar a matéria (mundo externo), deve antes regenerar sua própria alma (mundo interno). Por isso o caminho rumo à pedra filosofal se faz por meio das retificações no “interior da Terra”, no seu mundo interno.

Jung declaradamente assumiu ter se valido dos conceitos da Alquimia para organizar seus trabalhos sobre o desenvolvimento humano, e em vários momentos cita a noção alquímica do VITRIOL como correspondente do caminho de individuação rumo ao SELF. Nessa correspondência, o SELF seria essa representação simbólica da pedra filosofal, oculta no interior do profundo inconsciente. Jung inclusive menciona que o encontro com SELF pode se manifestar por meio da visão de um cristal, representando assim a descoberta, pelo indivíduo, do seu cerne outrora inacessível à consciência. 

Porém as imagens deste arcano não mostram a tal pedra filosofal, elas sugerem que o momento é de trabalhar para abrir essa conexão entre consciente e inconsciente. É uma fase preparatória para esse encontro do indivíduo consigo mesmo, e o trabalho interno consiste na reconstrução do sujeito que acabou de passar pela experiência da Morte e percebeu que partes de si estavam reclusas no porão da mente.

O processo do arcano da Morte se estabelece inicialmente de forma inconsciente, mas nesta etapa da Temperança a vivência é totalmente consciente e o indivíduo vai ligando os pontos entre as histórias e dando sentido às experiências, fazendo as reparações necessárias para que tudo que foi vivido seja integrado à noção consciente sobre si mesmo. Ele está refazendo sua identidade.

Por isso a referência deste arcano no Tarot de Thoth é “A Arte”, tanto pela referência com a arte da tradição alquímica mas também, e principalmente, para enfatizar que essa integração é algo muito raro e especial, na qual deve-se empregar toda a habilidade e dedicação possível, já que a identidade é fundante e determinante à toda vida psíquica.

Na psicanálise este momento poderia corresponder à fase terapêutica onde o indivíduo toma consciência das suas neuroses, seu ponto de origem, qual foi o propósito dessa adaptação neurótica, para assim decidir conscientemente sobre esses comportamentos fazendo as reparações possíveis no momento atual.

A capacidade de lidar com as frustrações e de fazer reparações é essencial para o desenvolvimento psíquico saudável. Melanie Klein é enfática ao apontar essa capacidade no pequeno bebê à época do desmame como sendo determinante para que ele passe da posição esquizoparanoide para a posição depressiva. Mas esse marcador vai além do desenvolvimento do bebê, ele é também um marcador da capacidade subjetiva do indivíduo de suportar os desafios e frustrações das fases posteriores de desenvolvimento. Para ela, uma criança que não consegue fazer as reparações próprias da sua idade pode ter ficado com o desenvolvimento psíquico comprometido permanentemente e sua libido se introverte impedindo que ela possa estabelecer relacionamentos e vínculos com o mundo externo, prejudicando a socialização.

Num desenvolvimento psíquico saudável, a criança consegue fazer reparações (repor os brinquedos, recompor as cenas vistas no dia a dia, ser capaz de se desculpar, de perceber-se fazendo parte da família) bem como ir lidando com as ausências da figura materna com cada vez menos ansiedade, e isso mais tarde reverbera na vida adulta promovendo relacionamento com mais qualidade onde o indivíduo percebe com clareza que certos comportamentos são inadequados e que para participar dos vínculos estabelecidos terá que negociar suas intenções originais e ceder em alguns momentos em prol de um benefício maior para ela e para o outro.

Ao final de sua obra, Freud afirma em “O mal estar na Civilização” que essa capacidade de negociar e ceder é necessária para um processo civilizatório saudável, no qual todos nós temos que deixar de lado impulsos individuais por uma satisfação imediata se para isso se coloca em risco a liberdade e a integridade do outro. Renunciar à satisfação meramente pulsional faz parte do nosso processo de adaptação ao meio e ao grupo em que vivemos, então, nesse sentido, para nos adequarmos a esse ambiente externo, teremos que reprimir impulsos individuais por muitas e muitas vezes, o que seguramente gerará conteúdos a serem enclausurados no inconsciente.

A distinção aqui é que o consciente consegue perceber esse processo, atentando para as causas e os efeitos dessa repressão original e mesmo assim mantendo-se receptivo às consequências do processo. Talvez no processo tenha havido uma pequena morte, nos moldes do arcano anterior, mas nesta etapa a consciência consegue lidar melhor com este fato e o indivíduo estará aberto e disposto a fazer as transformações necessárias para seguir adiante.

Essa é a chave do arcano, a capacidade para se regenerar, indicada pela espiral brilhante e as flores em tons violeta – a cor da transformação, e a atitude mental aberta e disponível, simbolizada pela figura feminina.

A receptividade e a transformação aqui não são vistas como fraquezas ou algo negativo, pelo contrário, são virtudes do aspecto feminino que permitem à pessoa fazer as reparações internas e os reajustamentos possíveis para seguir seu desenvolvimento em busca do SELF. O caminho continua.

Só quem consegue fazer reparações pode se regenerar e essa é a linha que une a Alquimia, Melanie Klein e Freud na questão da sublimação dos impulsos, enquanto capacidade máxima de adaptação social que passa pela habilidade de tolerar as impossibilidades, as mudanças de curso da vida, as frustrações e os momentos desafiadores.

Fazendo as reparações possíveis, o indivíduo consegue se manter inteiro, integrado, e essa noção de estar unificado é essencial para a sustentação do indivíduo em si mesmo. A integridade é a representação visual deste arcano no Tarot Zen de Osho, que indica a unificação e coesão das partes formando uma figura inteira.

Osho Zen Tarot
A coesão entre aspectos opostos é a força que faz com que uma pessoa passe de ignorante para consciente, de vítima a agente de transformação, de dominada para empoderada. Pode haver uma fase da vida em que a pessoa se sinta sem esperança de atravessar uma determinada situação limitante, imaginando-se como fraca. Mas num dado momento chega essa percepção mágica de que é possível ir além, é possível superar a condição de vítima e ir para o outro polo, e é nesse momento que a pessoa reativa o seu próprio poder, se em-podera.

Reside aqui o aprendizado de que nosso potencial pode ficar enclausurado na inconsciência por um tempo, se nos entregamos ao lado negativo da frustração e nos considerarmos abandonados ao meio externo e separados do todo. Mas se tivermos uma atitude disponível à mudança, flexível às impossibilidades e receptiva às novas opções, podemos ir subindo os degraus da percepção, numa grande espiral, e assim nos darmos conta do quanto ainda somos capazes de realizar, ressignificando os eventos e reconciliando-nos com o passado.

Perceber com clareza as forças que atuam em nós e circular conscientemente por elas nos proporciona domínio próprio e poder de geração da realidade que queremos. Podemos nos perder na frustração ou podemos ir além dela e cultivar atitudes mais disponíveis, na fluidez sugerida pelo elemento água. Essa é a grande Arte, o manejo consciente das poderosas forças internas que atuam o tempo todo, atraindo eventos para o nosso crescimento e nos desafiando a permanecermos íntegros nessa travessia pela vida.

Quando o arcano da Temperança surge numa leitura terapêutica, pode indicar que este é um momento para nomeações importantes a respeito do passado do indivíduo, onde tudo se mostrará com mais clareza e assertividade. Pode ser um tempo de assumir o que não foi possível realizar e lidar adequadamente com essas frustrações, talvez com um luto, para elaborar melhor o que ficou da experiência e positivar essa memória.

A partir das noções advindas desse processo, o indivíduo pode se situar melhor na atualidade, se perceber com mais atenção e reorganizar positivamente seu momento de vida.

Verbenna Yin
Astros - Tarot - Psicanálise

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Saturno em Escorpião - ainda falando sobre o arquétipo da Morte

Estamos vivendo um momento astrológico bastante intenso, com o posicionamento de Saturno ao final de Escorpião, preparando-se para deixar a área cósmica desse signo definitivamente perto das 00:00h de 18/09/2015. Dia 18, 1+8 = 9. O número dos encerramentos.

Saturno é o grande titã que nos devora pelo passar do tempo. Astrologicamente, é o planeta que nos desafia ao crescimento e à maturidade, nos questiona se estamos prontos e se daremos conta da nossa missão de vida. O que fizemos com nosso tempo? Temos estrutura para seguir adiante?

E Escorpião é o signo dos profundos aprendizados propostos pelo desapego, aqueles que nos marcam e nos definem e depois dos quais não somos mais como antes.

Estamos todos sujeitos aos efeitos deste posicionamento astrológico, e vamos nos conectando com as oportunidades que isso pode proporcionar de acordo com nosso grau de consciência sobre nós mesmos e sobre nosso momento de vida.

Saturno esteve  posicionado no signo de Escorpião desde o início de outubro de 2012, e se fizermos um exercício de memória para nos lembrarmos de alguma experiência marcante dessa época pode ser que este assunto tenha voltado à tona nas últimas semanas e de forma muito evidente.

É o nosso inconsciente nos alertando que esta será a última oportunidade de cuidar deste nosso aspecto de desenvolvimento propiciado por Saturno. Para lidarmos com este aprendizado de novo, só quando Saturno retornar ao signo de Escorpião em 2041, daqui a um bom tempo.

E este momento astrológico tem muita relação com o arcano da Morte no tarot. Como vimos na postagem anterior, este arquétipo nos propõe o retorno ao que nos é essencial por meio dos desligamentos de tudo aquilo que não é genuinamente nosso, por meio da transformação.

Mas é uma transformação que não implica necessariamente na extinção do ser, é possível uma continuidade desde que rearranjados os elementos para ser fiel à sua concepção original.

A ideia da morte, na cultura cristã, não significa a extinção completa da vida. Ao contrário, a morte sempre esteve ligada à continuidade da vida, é após a morte que vem a vida eterna, quando então seremos purificados e viveremos para sempre em amor e harmonia.

Como arquétipo, este arcano vem nos ensinar que durante nossa trajetória passamos por certos “níveis” de morte que antecedem um novo período da nossa vida, representados pelos pequenos lutos: deixamos de ser crianças, deixamos de ser adolescentes, deixamos de ser filhos, deixamos de ser casados, deixamos de ser... deixamos ir...

E ao desapegar daquilo que não faz parte de nós vamos chegando mais perto de quem somos de verdade, reconhecendo o nosso valor e tendo maior clareza daquilo que temos para oferecer para compartilhar com o outro.

Como cristais lapidados, agora podemos refletir nossa luz interna e passar para o próximo estágio dos aprendizados propostos por Saturno, agora em Sagitário. Não à toa, o próximo arcano do tarot é “A temperança”, arquétipo esotericamente ligado ao signo dos centauros. Mas isso será assunto para outro post.

Por hoje, deixo a sugestão de fazer uma avaliação pessoal para reconhecer as áreas de nossa vida que foram tocadas pelo Senhor do Tempo nesses últimos 3 anos e quais os aprendizados que pudemos ter dessas experiências. Olhe para você mesmo com muito respeito, agradeça este velho senhor que trouxe tantos ensinamentos, respire fundo e acolha as partes do seu Ser que sobreviveram ao impacto destes aprendizados. Elas são muito valiosas.

domingo, 6 de setembro de 2015

A Morte


verbenna yin
Tarot Rider-Waite
Arte de Pamela C. Smith
Um esqueleto montado em um cavalo branco, enormes, cavalgando por cima das pessoas na terra. Ele já pisoteou o rei, que está caído no chão ao lado de sua coroa, e está prestes a passar por uma mulher e uma criança. Adiante, um sacerdote tenta argumentar com esse ser cadavérico que continua seu passo sem qualquer empatia. Todos caem prostrados ante sua magnitude. Ao fundo, vemos uma queda d’água que separa aquela terra das torres que emolduram um grande sol ao longe.

Aqui temos o grande arquétipo da morte, o fim de todas as coisas como são conhecidas no mundo físico. Simbolicamente, os desligamentos e desapegos impostos pela vida aos quais teremos que nos render em algum momento.

Quando algo morre no mundo físico, seja um animal ou um vegetal, ocorrem os processos de decomposição dos materiais orgânicos que não resistem à ação transformadora da natureza. A transformação acontece por meio de reações químicas que dissociam os elementos componentes daquele organismo, promovendo o desfazimento da forma original e permitindo outras reações e combinações entre os elementos que se reorganizam, favorecendo potencialmente o aparecimento da uma nova forma.

Esse mesmo processo pode acontecer no nível psíquico, pois a morte é uma representação arquetípica e está além dos domínios do nosso controle consciente.

Na carta, as figuras atingidas estão em primeiro plano, em terra firme, denotando que os processos arquetípicos de morte, que se operam psiquicamente, são iniciados a partir de eventos no mundo externo, na realidade.

Simbolicamente, a morte é justamente a experiência humana pela qual passamos todos quer queiramos ou não, podendo representar com muita propriedade esse evento temido e indesejado que não podemos controlar. Aqui na carta, a representação simbólica do arcano indica um momento de extrema tensão emocional associada a um quadro da realidade que se impõe e ao qual será impossível resistir. Um trauma.

Por ser um processo arquetípico e de intensa carga emocional, o prenúncio da chegada da morte é sempre acompanhado pelo medo e uma certa perturbação. O medo nos faz agir impulsivamente para nos defendermos das mudanças inevitáveis que decorrerão da experiência, pois onde há medo há ainda um Ego que resiste.

Infelizmente, a morte é uma experiência em que toda a resistência apresentada será insuficiente, ela é grandiosamente maior que todas as nossas possibilidades de ação e sempre vencerá, passando por cima de tudo que havíamos planejado e construído. Exatamente como a sugere a carta.

No aspecto psicanalítico, a consciência tentará se proteger diante da intensidade dos afetos relacionados ao evento externo, podendo se encaminhar por duas possibilidades: conformar-se à experiência e promover uma adaptação iniciando uma estrutura neurótica, ou cindir-se e iniciar uma estrutura psicótica.

Na primeira hipótese, a carga emocional gera um conflito tão grande para o indivíduo que ele precisa defender-se dessa dura realidade para sobreviver psiquicamente e poder continuar sua trajetória. Assim, o indivíduo abre mão de partes de si mesmo que naquele momento não podem sobreviver a um dado contexto que é real e de extrema exigência para ele, mas que extrapolam seu âmbito de ação consciente.

Poderia ser o caso de alguém que vai bem nos estudos mas vive numa família que não valoriza o conhecimento por conta da necessidade de recursos e tem que abandonar a escola para trabalhar e ajudar financeiramente. Suas habilidades intelectuais não são reconhecidas e para continuar pertencendo ao seu grupo, garantindo sua sobrevivência emocional, o indivíduo abre mão de algo muito próprio. Ao abrir mão de algo genuinamente nosso é como passar por uma pequena morte, pois enterramos esse desejo e todo o esforço anterior feito para alcançá-lo, que agora não será mais recompensado.

Note que na carta quem argumenta com o Cavaleiro da Morte é o Bispo, figura que aparece anteriormente no arcano do Hierofante que nos fala justamente da importância do pertencimento para um desenvolvimento psíquico saudável. Não é à toa que essa mesma figura e tema sejam revisitados aqui, pois a ideia é de que haverá uma negociação para que a morte completa não aconteça e assim consciente e inconsciente põem-se em termos para defender a sobrevivência e permitir a adaptação do indivíduo ao seu meio da forma que for possível. A frustração aqui é determinante, mas o indivíduo é capaz de superá-la de alguma forma e seguir com sua vida e desenvolvimento.

E a carta segue dando as dicas do que acontece nesse processo. As torres que vemos ao fundo reaparecerão no arcano da Lua mais pra frente, onde finalmente poderá ocorrer o retorno ao Id para que o indivíduo possa buscar, consciente e voluntariamente, suas partes perdidas na experiência da morte. Mas aqui o processo todo acontece de forma inconsciente, o Sol está se pondo e é ofuscado pelas torres.

Na adaptação ao trauma, a divisão dos aspectos intrapsíquicos acontece como tentativa de apaziguar a tensão interna, o que geralmente ocorre com a criação de um sintoma lançado na realidade externa a fim de manter uma certa convivência pacífica entre as forças psíquicas conscientes e inconscientes. Pode se materializar como um padrão de repetição de eventos externos (rompimentos bruscos de relacionamentos, desligamentos de empregos onde nos dedicamos demais, amigos que se afastam sem motivo aparente, etc.), onde o que na verdade se repete é a sensação interna de impotência e isolamento. Conectados com o arquétipo ainda não assimilado pela consciência, vamos repetindo a experiência até que ela seja visível aos nossos olhos internos – para podermos trabalhar com isso adequadamente.

Então, no quadro neurótico, apesar de sobreviver e ser capaz de participar da realidade, produzir e se relacionar, o custo dessa sobrevivência para o indivíduo será a repetição que se estabelece doravante, condição que o colocará em conflito psíquico permanente, impedindo-o de desfrutar prazerosamente da vida porque ele fará de tudo para não entrar em contato com esse conteúdo forçosamente reprimido, criando métodos e caminhos mentais para assegurar que não enxergará esse material que foi “enterrado”. De forma que a aparente inevitabilidade dos eventos justifica sua ocorrência e a mente consciente não percebe que existe uma poderosa força psíquica de atração desses acontecimentos.

Geralmente nesse quadro neurótico, o indivíduo pode se sentir seguro comprometendo-se com demasiadas tarefas diárias e necessidades que sente ter que atender minuciosamente. Não existem grandes ações diante da vida, os sonhos são sempre impossíveis de realizar, a pessoa se mantém o tempo todo ocupada com pequenas coisas enquanto o alcance das suas ações nunca é suficiente para contemplar os desejos reais, que permanecem não admitidos. No fundo, ela está se empenhando numa luta constante consigo mesma, embotando seu âmbito de visão e percepção para manter afastado aquele afeto/desejo amputado que é a origem de todo o quadro.

Esses conflitos são vividos por repetição e podem ser a origem de neuroses que se manifestam de forma obsessiva (mente) ou histérica (corpo), dado sua natureza originária em comum. Freud tocou neste ponto em sua obra “As neuropsicoses de defesa” ao afirmar que o indivíduo age para afastar a memória traumática e transformá-la numa representação diversa, entendendo que a manifestação da neurose seria assim o resultado de “uma ocorrência de incompatibilidade que aconteceu em sua vida ideacional”. O afeto reprimido do trauma pode ser reproduzido em fatos inusitados como repetições compulsivas, pequenos acidentes, cortes e até em sintomas físicos, e essas repetições num dado momento forçarão o indivíduo a revisitá-las conscientemente como propõe J. Lacan ao estabelecer como matema que: “O que não veio à luz do simbólico, aparece no real.”

Já o quadro psicótico se dá quando a consciência foi dissociada prejudicando a coerência entre mundo interno e externo pois os conteúdos inconscientes irrompem desenfreadamente na consciência e não há mais como controlá-los.

É o surto, um momento de rompimento com a realidade e o indivíduo não consegue lidar de forma compatível com as coisas que lhe acontecem. Ele pode identificar um gatilho na realidade e vivenciar crises de pânico e ansiedade, que parecem reações exageradas e incoerentes com o evento externo relacionado, ou pode também criar uma porta de acesso permanente ao inconsciente iniciando um quadro psicótico.

A negociação com o consciente não é mais possível nesse caso. Nise da Silveira, importante psiquiatra brasileira que usou a abordagem Junguiana na terapêutica de pacientes psicóticos, sobretudo esquizofrênicos, faz a seguinte observação em sua obra “Imagens do Inconsciente”:

“Quando o ego cinde-se, estilhaça-se, seja por incapacidade para suportar a tensão de certas situações existenciais, pelo envolvimento em relações interpessoais destituídas de amor, frustrantes ou opressivas, seja devido ao impacto de emoções violentas ou ao trabalho surdo de afetos intensos, a libido introverte-se, vindo reativar o inconsciente. O ego, partido em pedaços, não tem forças para fazer face à realidade externa nem tampouco consegue controlar a maré montante do inconsciente.”


Tarot de Marselha
Em um e outro casos, a fragmentação será inevitável e a continuidade do desenvolvimento psíquico irá depender de que o Ego seja capaz de juntar todos os pedaços novamente. Isso pode levar muitos anos até que a pessoa esteja fortalecida novamente para realizar esse trabalho interno, e tanto a neurose como a psicose podem ser os caminhos mentais cujo propósito final será a integração possível dos fragmentos do Eu.

É o que propõe a imagem dessa carta no Tarot de Marselha, indicando o trabalho da consciência em reunir as partes fragmentadas que num outro momento poderão ser unidas novamente visando a recomposição psíquica em uma unidade integral.

Nesta imagem, a figura que segura a foice tem partes do corpo com pele e tecidos, mas em outras partes tem apenas ossos, simbolizando bem essa perda de partes essenciais de si que ocorre nos processos de fragmentação. A figura perdeu o pé, a mão, e o rosto: sem os pés não pode se dirigir ao que deseja, não tem autonomia; sem as mãos fica impedida de realizar e agir; e sem o rosto fica sem identidade. É a total impotência.

Mas a atitude dessa figura é o ajuntamento dessas partes perdidas que estão espalhadas pelo chão, sugerindo que a noção do tarot para a vivência deste arcano é positiva e que a experiência da morte, no fundo, visa à recomposição do indivíduo à sua forma original. Quanto maior a força impactadora do evento que criou a fragmentação, tanto maior será a força de coesão necessária para recompor a integridade interna.

É o que Jung reitera ao afirmar que “quando o processo atinge a esfera do inconsciente coletivo passamos a lidar com material sadio, isto é, com a base universal da psique, sejam quais forem as variações individuais”. E ainda: “as coisas que vêm à luz brutalmente na loucura permanecem ocultas nas neuroses, mas, apesar disso, continuam influenciando o consciente. Quando a análise dos neuróticos penetra mais profundamente, descobre as mesmas figuras arquetípicas que ativam os delírios dos psicóticos.”

Qualquer que seja então o desdobramento do consciente diante da experiência de morte, neurose ou psicose, sempre haverá um ponto comum e originário do processo que levarão ao material arquetípico desejado: a transformação.

É na reorganização posterior que ocorrerá a trans-formação, a mudança da forma antiga para uma nova apresentação. O trabalho do Ego consciente será o de assimilar a experiência, reconhecendo e nomeando os afetos e emoções relativos a esse evento impactante e dando lugar ao processo de luto, onde a pessoa poderá elaborar o que lhe aconteceu e ir se despedindo daquela forma anterior para assumir essa nova apresentação da realidade e de si mesma.

Osho Zen Tarot
A transformação é a imagem proposta pela representação desse arcano no Tarot Zen de Osho, que relaciona essa experiência ao deus hindu Shiva, senhor do fogo destruidor que reduz tudo a cinzas e permite os recomeços.

Geralmente os processos do arcano da morte estão associados a separações, perdas, rejeições e também a falecimentos reais. Qualquer que seja o disparador externo, será necessário lidar com a emoção desencadeada diante da impotência e que em algum momento será constituinte dessa nova versão individual, transformada.

Quando o arcano da morte se manifesta numa leitura terapêutica, é importante localizar na linha do tempo que evento foi esse que marcou tão intensamente a pessoa, para que ela possa nomear a experiência e se dar conta do que foi preciso renunciar e “deixar morrer” para seguir adiante. Ou talvez ela esteja revivendo essa pequena morte no momento atual, envolvida num processo de desapego muito importante.

Em todo caso, a escolha dessa carta mostra que é tempo de reconhecer que perdas aconteceram e que possibilidades reais existem de agora em diante. Pode ser necessário vivenciar no momento atual o luto para assimilar completamente a experiência e dali poder retomar seu desenvolvimento em novas bases.

Verbenna Yin
Astros - Tarot - Psicanálise

domingo, 9 de agosto de 2015

O Enforcado

Tarot de Marselha
Um homem preso pelo calcanhar esquerdo, pendurado de cabeça para baixo e com as mãos presas às costas. Limitado ainda pelo pouco espaço, aos lados há troncos de árvore podados e não se vê o chão, dando a ideia de que não há possibilidade de movimentos.

Tudo aqui denota que o homem está numa posição não natural.

Apesar disso, o homem tem uma expressão facial curiosamente serena, como se ele estivesse confortável nessa situação tão limitante.  

Situações de vida limitantes podem minar a expressão dos talentos e habilidades naturais de uma pessoa. Quando a vida impõe limites numa trajetória, acaba podando as oportunidades de nos desenvolvermos da melhor maneira. 

É o que acontece com uma criança que cresce numa família que não é capaz de reconhecer seus talentos inatos e desqualifica suas expressões e espontaneidade. Por exemplo, uma família onde os pais são "fieis cumpridores de regras" e o filho que chega tem tendências artísticas, talento para a dança e para fazer imitações. No contexto daquela família, pode não haver espaço para apoiar essa "bobagens de criança", o filho pode ser constantemente podado e levado a entender que suas manifestações artísticas atrapalham e não são bemvindas ali naquele grupo. 

E o que a criança faz para ser aceita e amada pelo seu grupo familiar?

Ela abre mão das suas expressões e aprende que a espontaneidade não cabe ali, que se ela quiser fazer parte daquele grupo tem que aceitar a poda. Tem que deixar de ser o que ela é e assumir uma postura antinatural e contrária à sua essência.

Eu uso a palavra "poda" de propósito. Já notaram os galhos podados ali na imagem do arcano?

Nossas possibilidades, capacidades inatas e potências naturais são constantemente podadas num mundo que aceita determinados estereótipos de imagem e comportamento, que tenham como finalidade apenas manter a produtividade das pessoas e o uso do tempo de vida de forma organizada para esse propósito. Tudo que foge desse padrão é minado sem dó nem piedade, aprendemos desde cedo que temos que nos adaptar às exigências sociais e já na infância vamos deixando partes de nós serem amputadas para podermos caber no modelo que garante para nós aceitação e sobrevivência.

A falta de oportunidades para desenvolvermos os talentos naturais impede a nossa melhor expressão e pode nos tornar seres passivos diante de nossa própria história, resultando em indivíduos que não tem a real noção das suas possibilidades diante da vida.


C. G. Jung, criador da psicologia analítica, estudou esse processo de formação psíquica e percebeu que a mente humana cria uma ferramenta própria para se adaptar melhor ao ambiente em que somos recebidos. Ele chamou de "Persona" essa área da mente consciente que escolhe quais características irá manifestar e aprimorar a fim de que o indivíduo possa ser reconhecido pelos outros e a partir disso possa interagir com mais chance de sucesso e garanta a melhor adaptação possível ao meio.

Para Jung, a Persona "surge por razões de adaptação ou de conveniência pessoal".

Num ambiente saudável onde haja aceitação e estímulo das capacidades inatas a Persona também se desenvolve, mas as escolhas conscientes são mais harmônicas e o indivíduo tem a chance de evoluir nos seus potenciais próprios, o que o leva a se sentir mais contemplado diante da vida.

Mas o que o arcano do Enforcado nos mostra é a situação contrária, onde o indivíduo foi tão podado das suas potencialidades inatas e precisou se adaptar de uma forma tão desconfortável que terminou por ficar de ponta cabeça, numa posição completamente contrária à sua verdadeira natureza.

Se a gente fizer uma retrospectiva da nossa história pessoal, vamos perceber esses momentos em que ainda na infância julgaram mal algo que gostávamos de fazer, fomos repreendidos e nos deixaram bem claro que não poderíamos repetir aquilo. Aquelas partes de nós eram inaceitáveis.

E aí que vamos crescendo e construindo nossa autoimagem sem essas partes de nós que não tiveram lugar, aos poucos vamos nos identificando com essa nova imagem que agrade os outros e com o tempo acreditamos que somos esse resultado e nos reconhecemos na nossa Persona.

O maior exemplo de Persona que temos na nossa vida social é a profissão que escolhemos. Quando nos apresentamos para alguém que não nos conhece ainda, dizemos: Sou fulano de tal, tenho tantos anos e SOU ALGO.


Essa qualificação que afirma que eu sou alguma coisa (médico, advogado, engenheiro, professor, etc.) cria em torno de nós expectativas para outras escolhas como desdobramentos daquela inicial, que vão desde a aparência física, as roupas que uso, o modo de falar que emprego, os locais que eu frequento, as pessoas com quem me relaciono, e até mesmo os planos futuros são construídos na dependência dessa qualificação.

Tudo tem que ser condizente e coerente a essa Persona, a Persona acaba dominando todas as escolhas possíveis e não sou mais livre para escolher o que no fundo desejo.


Tarot Gringonneur
E assim passamos a vida fazendo escolhas que nos mantém naquela mesma postura antinatural em que fomos colocados lá na infância. 


Mas apesar da impossibilidade ser evidente, a pessoa não se dá conta disso. Seu rosto mostra quase um sorriso, e de fato se invertermos a posição da carta pode parecer que ela está se divertindo, pulando num pé só, talvez até dançando!

Esse é o efeito da inconsciência. Quando não temos noção do nosso real potencial na vida não vemos as limitações como impedimentos ao nosso melhor, aprendemos a conviver com essas restrições e nos confortamos dizendo que “a vida é assim mesmo”. Essa atitude de resignação pode significar uma incapacidade de lidar com a culpa de não assumir a autorresponsabilidade pelo que vivemos, ou até mesmo uma falsa valorização interna a partir dos sacrifícios que são necessários para manter aquela situação.

Ficamos presos num ideário próprio limitante, e o pior, acreditando que estamos bem assim pois ganhamos algo dessa forma. 

Vejam que interessante a imagem do Tarot Gringonneur onde o homem está segurando duas bolsas cheias de moedas, indicando que ficar na posição antinatural pode até ser bem recompensada.

Mas a que preço?


Citando Jung novamente, para ele "podemos dizer, sem exagero, que a Persona é aquilo que não é verdadeiramente, mas o que nós mesmos e os outros pensam que somos".

O grande desafio aqui é perceber que mesmo bem adaptados e quicá recompensados socialmente, nossa postura adquirida, na realidade, é antinatural e nos prejudica. Por mais que nas ilustrações do Enforcado a pessoa esteja sorrindo, essa sensação de felicidade não é real: o desconforto de estar amarrados é o real. 


Tarot Rider-Waite
Podemos preferir acreditar num pseudo conforto pois essa ideia nos anestesia para não encararmos a dureza de vivermos uma vida parada, monótona, sem possibilidade de crescimento e que no fundo estamos desperdiçando nosso tempo de existência fazendo e construindo coisas que não nos contemplam.

É aqui que faz toda a diferença a imagem ilustrada pela genial Pamela C. Smith no Tarot Rider-Waite: a luz sobre a cabeça parece indicar que é somente nessa condição extrema que pode haver lugar para uma iluminação pessoal.


Somente quando nos permitirmos sentir o real incômodo de permanecer amarrados à postura antinatural da condição limitante é que há oportunidade de um crescimento verdadeiro. E digo verdadeiro porque esse será um crescimento que passará pelo momento de reconhecimento da essência daquela pessoa, de quem ela É de verdade.

A forte identificação com a nossa Persona nos torna pessoas rígidas, inflexíveis, sem capacidade de movimentação perante as diversas possibilidades da vida.

As sucessivas amarras que vemos nas diversas representações deste arcano reforçam, simbolicamente, a “impossibilidade de ser” do indivíduo ali representado, indicando que naquela condição é impossível qualquer progresso verdadeiro no sentido de desenvolvimento humano. 

Amarrados e inflexibilizados, é inútil desejar algo e ir em busca dessa satisfação. E sem o desejo, não somos pois o que movimenta nossa psique em busca do desenvolvimento pessoal é justamente o desejo. Ao final, o desejo é a busca por nós mesmos, a busca por essa essência que ainda não teve chance de ser reconhecida.

J. Lacan afirma que "se existe um objeto do teu desejo, ele não é outro senão tu mesmo", indicando que tudo que nos mobiliza perante a vida, no fundo serve para promover este encontro profundo entre nossa consciência e esse ser interno que sempre esteve lá, imanente, esperando para ser encontrado e finalmente poder ser expressar com liberdade.

Algo intrigante neste arcano é o título “Enforcado”, que a um primeiro momento parece não ser apropriado à imagem do homem pendurado pelo pé. E se consideramos que o enforcamento é uma penalidade a alguém que foi condenado, fica mais clara essa relação com a impossibilidade de movimento. Num enforcamento real a pessoa se debate com movimentos corporais involuntários, porém todos esses movimentos somente aceleram o processo de interrupção da oxigenação do corpo que a levará à morte.

Tal como no enforcamento, a situação representada neste arcano nos mostra que todos os movimentos da pessoa estão condenados, a morte é certa. E de fato, a Morte é o arcano que se segue ao Enforcado.

Este não é um arcano muito simples e sua representação não é óbvia, mas a mensagem central desta simbologia é: não há vida sem movimento.

Em algum momento da trajetória do indivíduo esse SER interno, essa luz própria na cabeça do arcano e que está apenas esperando para se manifestar neste mundo material, vai começar a dar sinais de sua existência - para ser então reconhecido pela consciência e restabelecer a possibilidade de movimento perante a vida.

Abrir espaços para iniciar essa busca por si mesmo é o primeiro passo para sair da inflexibilidade. Admitir que não somos a nossa Persona é uma grande desafio, mas é o passo inicial para começarmos essa caminhada em busca das partes de nós que ainda não tiveram chance de se manifestar, mas que ainda estão lá esperando para serem resgatadas e trazidas à luz da nossa consciência.

Quando o Enforcado salta numa leitura, é o momento de se reavaliar honestamente para perceber que nossa vida atual não nos contempla e que de fato estamos aprisionados a uma idealização de nós mesmos que não é capaz de crescer e prosperar. 

Talvez seja o momento de encarar de frente uma relação aprisionante, uma dependência emocional, ou mesmo uma trajetória inteira que não condiz com nossos verdadeiros potenciais e pode nos deixar profundamente frustrados. 

Percebendo que traços são esses que não desenvolvemos de forma consciente, podemos ir mais fundo na busca por nós mesmos e ir, pouco a pouco, dando lugar para as partes de nós que nos contemplam e realmente nos vivificam.

Verbenna Yin
Astros - Tarot - Psicanálise